Agostinho da Silva, pensador controverso e enigmático.
Centenário do nascimento do pedagogo portuense assinala-se hoje com programa para todo o ano Controvérsia em redor da obra mantém-se, mas é consensual a atitude visionária e anti-institucionalista.
O centenário do nascimento de Agostinho da Silva – celebrado hoje com um programa que se prolonga ao longo de todo o ano – revela que a sua figura continua controversa e enigmática, mesmo para os que o conheceram. Nem a designação “filósofo” é consensual.
“Conheci-o e apreciei-o, embora sempre muito intrigado com a sua figura misteriosa, mas foi talvez a pessoa mais extraordinária com que alguma vez me deparei – não era parecido com ninguém excepto com ele próprio”, declarou Eduardo Lourenço, que esteve com Agostinho da Silva em 1958 no Brasil, onde este se exilara. O encontro deu-se no Estado de Santa Catarina, “onde ele era uma espécie de secretário da Cultura”, acrescentou o filósofo e ensaísta, recordando as circunstâncias que conduziram o pedagogo ao exílio voluntário. “A determinada altura da vida intelectual portuguesa, os funcionários públicos tinham de assinar uma declaração em como não eram comunistas e Agostinho da Silva, embora não o fosse, recusou, por considerar um atentado à sua liberdade”.
“A sua linha de pensamento é difícil de enquadrar”, continua Eduardo Lourenço. “Não se pode dizer que tenha sido um conservador, nem um revolucionário ou um anarquista místico, pois ele era um misto de tudo, um ser muito contraditório”.
O professor de Filosofia Nuno Nabais sublinha que “não existe um ‘pensamento Agostinho da Silva’, na medida em que não há uma tese original sua, uma reflexão sobre os grandes temas, como o belo, o bom, o Homem”, mas antes “um estilo desassossegado, contrário à canonização do pensamento” e “uma raiva aos cânones e às instituições”.
“Parasitagem académica”
“Agostinho da Silva sentir-se-ia triste ao ver que existe uma parasitagem em torno do que escreveu e que, no meio académico, há pessoas a fazer doutoramentos sobre reflexões suas que não são filosóficas nem têm densidade teórica para ser objecto de teses, como ele próprio reconhecia” – acrescenta Nuno Nabais.
Mas a reflexão de Agostinho da Silva em torno de diversos temas é encarada de forma diferente pelo escritor Baptista-Bastos, que apresenta as suas obras como “livros de clarificação do pensamento filosófico. Ele escreveu sobre quase tudo o que diz respeito à criatividade e à criação humanas numa linguagem descodificada e singela sem ser simplista e esta é a sua maior grandeza”, destacou.
Para Baptista-Bastos, o filósofo “representa hoje aquilo que sempre representou na revista Seara Nova – uma dose de utopia, quimera e esperança nas infinitas possibilidades do Homem”.
Pensamento visionário
O escritor e jornalista Fernando Dacosta – que descreveu Agostinho da Silva como “possuidor de uma grande lucidez, alguém que não dizia uma frase gratuita” – reforça a ideia de que “foi um ser que veio de um tempo muito à frente e cuja capacidade de antecipar problemas actuais fascinou uns e desconfortou outros”.
“Há 20 anos, disse-me que viríamos a assistir a um fenómeno de globalização, à explosão do desemprego e ao fanatismo religioso”, recordou o escritor, que vê nele “a figura mais brilhante da segunda metade do século XX”.
A veia profética agostiniana não impressiona, todavia, Nuno Nabais, que prefere destacar “o que de mais bonito ele legou, que é uma consciência amarga das asfixias que definem a vida comunitária e cultural portuguesa”.
“Na verdade, Agostinho da Silva construiu um conjunto de mitos sobre Portugal e ele próprio – figura maltratada no país – ao tornar a sua amargura em algo positivo. Confirmou o mito de que os portugueses têm a capacidade de transformar as desgraças em virtudes”. A verdade é que classificar as reflexões de Agostinho da Silva parece ser tão difícil quanto definir a sua personalidade.
* Agência Lusa


[...] * Retirado daqui. [...]