Alguém, algures no tempo, me ofereceu um rádio transístor vermelho, da marca National. Estimava-o. Figurava na galeria dos pouquíssimos divertimentos que a infância e pré-adolescência juntas me haviam aportado. Onda média, já se vê, mas ainda assim dava-me a possibilidade de ouvir alguma da música que na altura passava na rádio. Alguma das estações nacionais, outra da Rádio Altitude da Guarda. Não me envergonho do passado e por isso posso dizer sem rebuço que ouvia as canções do “grande” Nelson Ned, Roberto Carlos e outros que tais. Mas também dos Beatles e dos Stones.
Durante o período em que fui proprietário do pequeno transístor, tiveram lugar acontecimentos que marcaram para sempre a minha história e a história deste miserável país.
Frequentava o ciclo preparatório. Destes tempos, para lá dos personagens dos livros de língua francesa, Robert, Nicole e Patapouf, reforçados com a tele escola e aquele professor que insistentemente repisava “repetez vous”, apenas recordo o dia em que uma violenta gripe me atacou e fiquei toda a tarde tremendo ao sol da Primavera, enquanto esperava a “carreira” para casa e o dia em que no intervalo matinal de uma das aulas alguém disse: “Há uma revolução em Lisboa!” Lisboa ficava a umas boas 8 horas de caminho, por isso não havia da revolução chegar ali. Os lisboetas que se desenrascassem. A palavra “revolução” não constava do nosso vocabulário. As pequenas revoluções que a aldeia ia conhecendo resultavam, quando muito, por entre os efeitos do álcool, de umas sacholadas bem assentes no lombo, às vezes na testa, de um vizinho menos ordeiro ou como ponto final de uma rixa de taberna mal resolvida por entre os copos de três. Por isso, nem sabíamos ao certo como interpretar o facto de haver uma revolução em Lisboa. Sabíamos que não era coisa que se desse todos os dias. Ler o resto desta entrada »

