Apesar de uma certa imbecilidade do próprio, o facto é que em casa dele ouvi e aprendi muito daquilo que constitui “nowadays” o meu universo musical. Não recordo já se os registos de Nick Drake foram ou não afectados pelo famigerado incêndio em casa do “J” que já aqui mencionei. Sei sim que, desde essa altura, os ambientes sonoros daquele foram sendo regularmente companhia nos mais variados momentos. Também não recordo se no dia da construção da estante no quarto do “J”, parte do projecto de remodelação dos seus anárquicos aposentos, no gira-discos rodava vinil de Drake. Rodavam, isso sim, pedaços de madeira, pregos e parafusos. Recordo ainda a expressão de terror seguida de desfalecimento do “J” quando, por entre a confusão instalada, se lançou ao serrote e cortou mais curto do que devia, um pedaço de madeira com aspirações a prateleira. Testada no local e verificado o irremediável erro, pousou a madeira, levou lentamente as mãos à cabeça caspada e deixou-se ficar ali, de pé, fitando incrédulo a madeira inanimada por longos segundos. Durante esse tempo a face habitualmente rosada e curtida pelo álcool de “J”, tornou-se alva como o lacado da madeira usada na bricolage. Podia ler-se-lhe na expressão: - Meu Deus o que fiz eu?!
E, no silêncio que entretanto se instalou quando todos demos pela asneira, quase podia ouvir-se a voz do próprio Deus responder-lhe na sua calma celestial: - Fizeste merda, como habitualmente! Ler o resto desta entrada »

