27
Março
2006
Hoje marca o início do fim! Ao iniciar estas linhas estava inclinado para o lado da prosápia deprimida e deprimente. Depois pensei: “foskinsmiths (o word não reconhece esta palavra, não sei porquê), estou farto disto, não se fala mais no assunto.” E assim foi! O “foskinsmiths” trouxe-me logo à ideia as noites passadas no quarto feito sala de fumo/discoteca/cozinha do “M”. A coisa era bastante simples: depois do jantar, hábito que se mantém (“old habits die hard”), todos nos reuníamos num dos bares da vila, hoje cidade (não se sabe ao certo porquê), para o café da ordem, que aconchegasse o estômago satisfeito do jantar onde o coelho bravo ainda pulava. Nunca tive o vício do cimbalino, da bica ou do café. Sempre preferi uma cerveja após o vinho do jantar. Caía-me melhor e ajudava a esclarecer as ideias e a abrir horizontes para a noite que se aproximava. Café, ou o que quer que fosse, tomado, percorríamos as ruas numa procissão pagã, entrando e comungando em todas as portas que o divino Baco mantivesse abertas pela noite dentro. Lamentavelmente, a edilidade não compreendia e continua a não o fazer, a devoção dos adolescentes no limiar da idade adulta, prestes a entrar num mundo desconhecido de rotinas, truques, desonestidades, manhas e artimanhas (tudo para conseguir flutuar), na divindade romana e, ainda a noite dava os primeiros passos, já os templos se fechavam e, para evitar a identificação policial por beber fora de horas e pedir dinheiro ao progenitor para pagar a multa no posto local da GNR, a solução eram as capelas privadas. Para quem está de férias no interior esquecido e ostracizado deste país Ler mais »
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23
Março
2006
Quis o destino que um dia eu e o António nos cruzássemos, enquanto profissionais de uma forma ou de outra interessados no estudo dos fenómenos (e alguns bem raros e estranhos) que proliferam na nossa administração pública, autárquica incluída.
Num desses encontros o António teve a gentileza de me oferecer um dos seus livros: “Até acabar com o Diabo”. Enquanto jovem adolescente (pré-adolescente, como agora se diz) lia com entusiasmo as obras de Alves Redol e de Gabriel Garcia Marquez, que me transportavam para mundos que eu conhecia, realidades com que me identificava. Quando, curioso de saber se aquele jovem escritor tinha ou não queda para a coisa, iniciei a leitura de “Até acabar com o Diabo”, depressa me vieram à ideia aqueles autores. Os ambientes, as personagens, os acontecimentos, estava lá tudo. Eu conhecia-os sem nunca os ter visto e sabia que só quem os conheceu podia assim falar deles. Desde essa altura que leio o António com a assiduidade que a minha vida profissional e os meus hobbys permitem.
O mais recente livro do António, “O amor por entre os dedos”, que finalmente acabei de ler, reúne um conjunto de contos outrora enviados via e-mail aos subscritores do seu site (que, apesar de ainda estar no ar, está desactualizado e no Livro de Visitas conta já com a habitual invasão de mensagens de sites terceiros anunciando viagra para quem quiser e puder) e revelam a mestria com que escreve sobre o mundo que o rodeia, com toques de surreal e non-sense.
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18
Março
2006
Neil Young - On the Beach - 1974
Fotografia: Bob Seidemann
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18
Março
2006

Da janela avistámos o Rego.
Solicitámos a cegueira dos veículos.
A tarde envolvia, quente,
o ar transbordante de oralidades mal concebidas,
ao que ripostámos adormecendo o corpo na alma arrasada
pelo som áspero de um transporte explodindo lentamente,
como se a lassidão da atmosfera estivesse agora mais perto.
O estoiro abriu as janelas aos guardiães das doenças fatais,
que mastigavam a carne apodrecida.
Contaminados,
retomámos o olhar longínquo e, num ângulo certo,
vislumbrámos o interior do presidente.
Viajava segura contra incêndio!
Ateámos-lhe fogo e continuámos a rir até que
os ossos se transformaram numa cinza parda,
desmentida de novo ao olharmos, cegos,
as mães dos passageiros que riam em escárnio
à sorte dos filhos estropiados no
ultramar português.
Merda… era tão bom rir enlouquecido pela selva verde!
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