Arquivo para 22 de Dezembro de 2005

Deixem-me falar-vos de “O”. “O” era um mecânico falido por razões que apresentarei como simples e óbvias: furtava peças de veículos de certos clientes, para colocar nos de outros também certos clientes. Tendo em consideração que havia sempre veículos na oficina o negócio não parecia de todo em todo mau. Tira daqui, põe ali, veículos reparados com investimento zero. Mas era, era mau. Tão mau que além de falido, o “O” era com frequência ameaçado de morte, ou, na melhor das hipóteses, de uma soberba carga de porrada. Devo dizer que ignoro se algum dos seus cada vez mais escassos clientes acabou por lhe chegar a roupa ao pêlo, enfim, dar-lhe um aconchego fraterno, aquele abraço. Sei, contudo, que andou durante tempos infindáveis no fio da navalha. Mas, “O” só correu perigo efectivamente grave, quando, inopinadamente, fugiu com a filha do chicheiro! Episódio de outra novela, que aqui há-de contar-se. Mais tarde. Ler o resto desta entrada »

Comments Sem Comentários »

Tombámos mortos de alcoól e Valéria ria em gargalhadas de cio imprudente, entre o trago fácil de um uísque ordinário e o afagar caloroso do sexo humedecido. Jorge sorria matreiro.
O ar da sala tragava incolores os odores da festa, que, de paredes nuas, só um astuto e, no entanto, miserável cabide presenciava. A mesa do talho estava lá para estar no memento da aventura, sem que mais explicações fossem necessárias.
Valéria era louca e entorpecia-nos os sentidos com conversas estrebuchantes de palavras ordinariamente viscosas. Gozávamos o hálito ilustrado de amantes que Valéria exalava da boca piorrenta, adivinhando os que lhe sugaram os mamilos até à exaustão.
Valéria e Jorge entumecidos.
Em acto de alucinante desvario toma-a de assalto sobre a mesa de talho, cujo mármore ornamentava a cozinha excêntrica de Valéria. Contorciam-se. Ninguém ousou mexer-se e todos aplaudimos o acto de brava coragem. Assistíamos e queríamos gozar o sentido próprio da festa masturbando-nos num amontoado de carne erecta, que transpirava ofegante a penugem basta da alcatifa que nos absorvia o ser.
Caiu a máscara e as paredes escureceram quando o mundo penetrou Valéria, a casa e o que restava dos convivas que jaziam mortos num orgasmo inacabado.
Jorge cuspiu sangue e confrontou a existência com a morte.
Valéria ria em gargalhadas de cio imprudente.
Jorge sorria… morto!

Comments Sem Comentários »

Fotografia ♦ Photography ♦ 70-200.net ♦ Since 2005
Fotografia e Textos de © Arlindo Pinto, excepto onde indicado.
Best viewed with a resolution of 1024x768 (or higher).