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Viva o marisco!

29 Dezembro 2005

Viva o marisco!

Já a memória me falha para, com certeza, afiançar em que ano, ou no aniversário de quem, literalmente regado a preceito, como era hábito e questão de honra, sobreveio a estranha batalha de entremeada versus entrecosto. Aliás, a esta distância, é até difícil de entender como e porquê, carnes da mesma natureza, suína, se embrenharam numa terrível e odiosa batalha “campal”, no interior de uma pacata habitação nortenha.
Tratava-se, disso estou certo, do aniversário de um mortal amigo ou familiar de um. Naturalmente, tudo se passou à noite, na penumbra, à parca luz de um ou dois candeeiros a petróleo. O corrupio diurno, além da habitual romaria pelas tascas, tabernas, cafés, snack-bares, adegas, públicas e privadas, tinha sido recheado de deslocações a outros estabelecimentos, inclusivamente, e o mais importante, ao do chicheiro com cuja filha, se se recordam, “O” havia de fugir. Mas isso foi mais tarde (“guardado está o bocado para quem o há-de comer”). Das tascas e “capelas” semelhantes, chegaram os mantimentos de teor alcoólico: vinho tinto (branco não é vinho), cerjeva (muita), champanhe para terminar em ébria apoteose e Português Suave sem filtro. Sim, algumas cigarrilhas, mas a abastança não chegava ao charuto, muito menos cubano, aliás, até desconhecidos, ou mal vistos, não sei. Nem sei se mal vistos ou desconhecidos eram os charutos ou mesmo os cubanos. Fica a incógnita. Ler mais »

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26 Dezembro 2005

Os bichos hão-de revoltar-se de novo!

Meninos do Coro - Revolta no zooNão li, vi, ou sequer ouvi, as notícias de hoje, dia seguinte ao apocalipse do gamelório natalício e do corrupio das oferendas mútuas, dos respectivos abraços e votos de felicidade (efémera, digo eu). Acabou também o tempo da solidariedade. Hoje tudo volta a ser o que era: casa trabalho (emprego para alguns), trabalho casa. Ódio recíproco entre os condutores que, possivelmente, ontem se amaram! A época da fraternidade e amor universal só voltará no próximo dia 31, ou melhor, na transição de 31 para 1, data na qual até desconhecidos se abraçarão e revezar-se-ão nas felicitações e mais desejos de tudo e tudo! No dia seguinte vestem o fato de três peças e volta tudo à normalidade: todos estranhos aos olhos de cada um, não nos conhecemos, nem reconhecemos a nossa condição humana. Temos orgulho na nossa componente animal, nos nossos instintos básicos de ataque e defesa. Adiante.
E se os bichos se revoltassem?
Em tempo de presidenciais, recordo com a nostalgia o dia Ler mais »

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23 Dezembro 2005

Oremos ao deus da hipócrisia.

Árvore de NatalÉ! Estamos a atravessar uma quadra festiva, uma época de paz e amor. Tanto amor que quase caímos no pecado (mortal) de amar a mulher (ou o marido, eu fico pela mulher) do próximo. Trata-se de celebrar o nascimento do Filho do Criador.
Mas, mais importante, trata-se de transportar para a era moderna os gestos de Baltazar, Melchior e Gaspar. Nem que para isso tenhamos que suportar longas filas de transito automóvel ou pedonal. Encontros e encontrões nas catedrais do consumo, tomar aquele banho de multidão, que nos traz os mais variados odores, os gestos mais simpáticos, as melhores prosas dos vendedores de lojas de toda a natureza e feitio. Ler mais »

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22 Dezembro 2005

“O”

Deixem-me falar-vos de “O”. “O” era um mecânico falido por razões que apresentarei como simples e óbvias: furtava peças de veículos de certos clientes, para colocar nos de outros também certos clientes. Tendo em consideração que havia sempre veículos na oficina o negócio não parecia de todo em todo mau. Tira daqui, põe ali, veículos reparados com investimento zero. Mas era, era mau. Tão mau que além de falido, o “O” era com frequência ameaçado de morte, ou, na melhor das hipóteses, de uma soberba carga de porrada. Devo dizer que ignoro se algum dos seus cada vez mais escassos clientes acabou por lhe chegar a roupa ao pêlo, enfim, dar-lhe um aconchego fraterno, aquele abraço. Sei, contudo, que andou durante tempos infindáveis no fio da navalha. Mas, “O” só correu perigo efectivamente grave, quando, inopinadamente, fugiu com a filha do chicheiro! Episódio de outra novela, que aqui há-de contar-se. Mais tarde. Ler mais »

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22 Dezembro 2005

Noites de Valéria

Tombámos mortos de alcoól e Valéria ria em gargalhadas de cio imprudente, entre o trago fácil de um uísque ordinário e o afagar caloroso do sexo humedecido. Jorge sorria matreiro.
O ar da sala tragava incolores os odores da festa, que, de paredes nuas, só um astuto e, no entanto, miserável cabide presenciava. A mesa do talho estava lá para estar no memento da aventura, sem que mais explicações fossem necessárias.
Valéria era louca e entorpecia-nos os sentidos com conversas estrebuchantes de palavras ordinariamente viscosas. Gozávamos o hálito ilustrado de amantes que Valéria exalava da boca piorrenta, adivinhando os que lhe sugaram os mamilos até à exaustão.
Valéria e Jorge entumecidos.
Em acto de alucinante desvario toma-a de assalto sobre a mesa de talho, cujo mármore ornamentava a cozinha excêntrica de Valéria. Contorciam-se. Ninguém ousou mexer-se e todos aplaudimos o acto de brava coragem. Assistíamos e queríamos gozar o sentido próprio da festa masturbando-nos num amontoado de carne erecta, que transpirava ofegante a penugem basta da alcatifa que nos absorvia o ser.
Caiu a máscara e as paredes escureceram quando o mundo penetrou Valéria, a casa e o que restava dos convivas que jaziam mortos num orgasmo inacabado.
Jorge cuspiu sangue e confrontou a existência com a morte.
Valéria ria em gargalhadas de cio imprudente.
Jorge sorria… morto!

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20 Dezembro 2005

Quem era o António?

Presidenciais. O quê? O que é isso?
O Desemprego. Como?
O lixo na rua. Hã?
Lançar beatas, invólucros de tabaco, garrafas de água, cassetes (CD ainda não vi, sou sincero) do veículo em andamento. Who cares?
O efeito estufa. A estufa fria? Get out of here!
A questão do momento a que urge dar resposta, sob pena de colapso nacional, de incremento significativo das nauseas e mal estar geral (género gripe), das depressões e, por tal motivo, das ausências ao trabalho, é “QUEM MATOU O ANTÓNIO?”!

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